quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Fábulas de uma viagem para dentro de mim


Fiz uma viagem para dentro de mim e não fui sozinha. 
Uma menina negra, ágil e alegre se propôs a me fazer companhia. Ela havia sido abandonada pela família, que por pobreza extrema não teve outra opção (situação quase corriqueira num país de base colonial escravocrata como o nosso). Decerto que não tive opção, aceitei a companhia dela, afinal eu sou uma mulher negra, adulta, ágil, hora alegre, hora triste, e que por muitas vezes sou abandonada até por mim mesma. Cuidamos uma da outra nessa viagem.

Por alguns dias ficamos em frente a um rio. Fixamos nossos olhares nas águas que passavam tranquilamente. No fim do dia, a margem ficava alta e banhávamos nossos pés. No início do dia, a água estava tão baixa que era tudo transparente e dava para ver o leito e tudo que estava lá, pedras, pequenos peixes, gravetos... Ele esperava tranquilamente o dia todo para ser cheio ao fim do dia...

Eu e menina entendemos a primeira lição: nossas vidas são como rio, altos e baixos. Quando estamos no alto, nossa energia é tão forte que erradia... Todos se aproximam e querem usufruir desse momento, sejamos generosas, compartilharemos... Quando em baixa, nos momentos amargos da vida, nossa energia enfraquece, ficamos tão transparentes, toda dor, dúvidas que estão guardadas são mostradas. Não seremos arrogantes, esperaremos e pediremos ajuda...

Seguimos a viagem. Passamos alguns dias na estrada só nos olhando. Já no quinto dia, resolvemos sentar debaixo de uma grande árvore e conversar. Escolhemos essa árvore pela sua grandeza, com caule e galhos grossos, negros e fortes. Tantas folhas, de muitos tamanhos, de muitas tonalidades de verde... Sua sombra imensa... Sentamos debaixo dela e iniciamos a conversa...

Eu disse a menina:
 - Quando era do seu tamanho, meu único sonho era ter uma casa na árvore, morar nela para sempre e escrever muitas histórias...
A menina me olhou com os olhos arregalados e disse:
- Mesmo? Pois esse é meu sonho!
Olhando para a copa da árvore que nos protegia com sua sombra eu respondi:
- Que coincidência maravilhosa... Eu não tive a casa na árvore... Hoje meu sonho é ser a árvore... Tão forte e bela quanto essa, assim meninas como você podem construir suas casas na árvore...
A menina alegremente perguntou-me:
 - Quando tu conseguir ser essa árvore, me deixa ser a primeira moradora e fazer minha casa lá?
Aquela pergunta me emudeceu... Fiquei algumas horas pensando, então respondi:
- Com certeza quero ser sua árvore e abrigar tua casa para sempre. Estou gostando muito de sua companhia, mas, enquanto eu não sou essa grande árvore, tenho uma brincadeira para te propor... vamos nós duas subir nessa árvore e fazer nossa casa... Que achas?
- Gostei!!! Vamos sim! A menina vibrou animada...

Subimos na árvore, eu e a menina, eu era a menina, a menina era eu...

E descobrimos que a árvore e a casa estavam lá, dentro de nós... Ficamos muitos dias dentro de mim, brincando e escrevendo nossas histórias...
A lição da árvore: somos nossa História, nossas lembranças e sonhos. A grande árvore só precisa de espaço e decisão para brotar e crescer...


Depois conto mais sobre a viagem para dentro...

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