sábado, 16 de abril de 2011

Certezas

Para início de conversa: em que rio navega o amor que a te dediquei?
Para o meio da conversa: preciso entender em que mar encontrará outro amor tão grandioso quanto o meu?
Ou talvez, lembrar-me em que curva da montanha, esqueceste de me dar a mão?
Para encurtar a conversa: dei espaço ao vazio nos meus afetos, algo belo e leve ocupou esse vazio.
Para finalizar a conversa: uma estrela, um astro guiam-me, e deram-me a certeza de que sou imensamente amada, inclusive por mim.  Um tipo de amor que tu talvez desconheças.
Tenho sede e fome de tudo que não senti, deixe-me livre, ainda estou ensaindo meus vôos de Borboleta saída do casulo.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Tudo ficará bem minha menina

Ultimamente ando sem novidades... Decerto que essa noite encontrei-me sofrendo (inclusive com lágrimas) depois de ver um filme meio chato, se não fosse à presença de Jeniffer Lopez tentando se livrar de um ex-namorado que a espancava não teria assistido até o fim... Fui para varanda, aproveitei a companhia da lua para entender qual o motivo daquela dor. Mesmo sabendo que tive uma semana de cão no trabalho, uma TPM braba ... Tudo muito bem né?... Para quê tal sofrimento?
Depois de alguns minutos, a lua com a ajuda das estrelas resolveram ajudar-me na resposta. Como uma mãe carinhosa colocou-me no colo, eu como uma filha meiga fiquei quietinha.
- Minha Linda, lembra daquela noite que esperastes por ele? Estavas grávida de 06 meses. Vestia uma bata azul... Ele chegou em casa embriagado, você chorou, reclamou, trocaram ofensas... Ele descontrolou-se, insano te bateu.  Já se passaram 13 anos querida, mas, a dor daquele momento ainda te assombra porque não conseguistes perdoa aquele pobre homem doente - disse-me a lua.
Respirei fundo, aninhei-me mais ainda nos seus braços e pedi para que escutasse um pouco.
- Não é bem assim. Preciso confessar uma coisa...  Durante muito tempo, neguei-me a falar sobre isso... Porque tinha vergonha de ter continuado junto dele depois daquela situação, o perdoei sim, eu preciso é perdoar-me por ter o perdoado tão rápido. Se bem que, depois ainda passei muito tempo o torturando por ter agredido, grávida, a mulher que ele dizia amar... Hoje entendo que ele nem se amava, não se conhecia, não se dominava... Ele precisava de amor e cuidados para aprender amar... Eu precisava das mesmas coisas... Acho... Não tenho certeza, fiz por ele o que precisava que fizesse por mim – amor incondicional e cuidados. Naquele momento só tínhamos um ao outro...
- A doçura apazigua a amargura, busca lembrar-te de algo bom que ele fez a ti, vai ajudar a sarar essa ferida - A lua aconselhou-me carinhosamente.
- É bem verdade isso... Vamos lá, lembro-me que quando nosso filho nasceu não foi um parto normal, bem que eu queria, mas não veio, fiquei bem debilitada com o parto cesariano.  Era um bebê chorão e inquieto. Dormia o dia todo e passava quase toda noite acordado esperneando... Lembro dele, o pai, nos cuidando com dedicação. Colocava o bebê no ombro e ficava do quarto para a cozinha, balançando, cantando até o nascer do dia, eu dormia aliviada. Somente para amamentar ele acordava-me, colocava o bebê no meu seio e ficava velando. Cozinhava para mim durante o dia, lavava as fraldas, acompanhava-me durante o banho, ficava na porta do banheiro segurando a toalha, enxugava minhas pernas e costas, ajudava-me a vestir até as roupas íntimas e dizia: logo tudo ficará bem minha menina.
- Boa noite minha linda- disse-me a lua.
- Boa noite também! - as estrelas disseram em coro.
Fui dormir tranquila.

quinta-feira, 31 de março de 2011


Passei toda manhã naquele bazar. Muitas pessoas intrigantes passavam de lá para cá, olhando e comprando os mais variados objetos... Adoro o movimento... Sou apaixonada por gente... E a escolha dos objetos... Eu ficava imaginando o porquê das escolhas... Aquela mochila que o jovem comprou... Devia ser em virtudes das lembranças de viagens, era bem surrada, ela deve ter ido a muitos lugares... E o cachecol? Devia ser porque lembrava um inverno de aventuras para a bela senhora que pechinchou até levá-lo... Ou o desejo de ainda vivê-lo...
Enfim, já era quase hora do almoço, a fome dizia: vamos embora, vamos embora... Quando aquela caixinha lilás chamou minha atenção, fiquei imaginando o que havia dentro, parecia uma caixa de surpresas... Aproximei-me da mesa feito menina sorrateira... Peguei-a, pisquei para ela, ela piscou para mim... Então resolvi, devagarzinho vou abri-la... E ela se desmanchou toda na minha frente, como quem sorrir dando gargalhadas!
Era uma caixa de costura: linhas, agulhas, alfinetes... Fiquei devaneando, se a caixinha lilás que sorria para mim teria sido de uma vovó querida, ou, de uma costureira famosa... Ou ainda de alguma bordadeira dedicada... Não resisti comprei–a... Mesmo que de costuras e bordados eu não entenda nada...
A caixa lilás dorme na escrivaninha em frente a minha cama e faz-me um lembrete gracioso: na contemporaneidade, estais a costurar... A emendar novos pedaços na colcha de retalhos que é tua vida...



domingo, 27 de março de 2011

Lembranças de viagem 2

Existe uma praia no nordeste, uma reserva de pescadores que vivem em comunidade, PRAINHA DO CANTO VERDE, a preservação da cultura e beleza natural do lugar, é luta de todo dia daquele povo. Para lá fugi algumas vezes para me recompor. Foi o cenário de uma das poucas viagens em família, naquele momento ainda estávamos juntos.
Era páscoa, uma viagem de comemoração do aniversário de nosso filho.  O por do sol mais lindo de minha vida: um amarelo ouro luminoso e tranquilo, as ondas do mar estavam baixas, azul cinza, o céu não tinha fim.
Eles, naquele momento eram somente pai e filho e brincavam com um barquinho de madeira a beira mar. Elas, mãe e filha estavam irmanadas fazendo castelos de areia, quando o vento soprava os cachos da filha, a mãe agradecia a Deus por viver tamanha beleza. . .
Nesses dias falávamos pouco, sorríamos muito. Depois de quatro dias num Paraíso, voltamos para casa bem felizes... eram dias de paz.

domingo, 20 de março de 2011

Perdeu o chão

Fazia alguns dias que estava enjoada e sem fome, sentia que meus seios estavam doloridos e crescidos. Imaginava, mas, não tinha certeza, talvez eu esivesse grávida... uma manhã de céu azul e sol brilhante, voltei com o resultado em minhas mãos, estava grávida de verdade, foi uma alegria deslumbrante. Era visceral meu desejo de ser mãe, parecia-me tão natural quanto o encontro do rio com o mar. No mesmo momento liguei para o pai. Do outro lado da linha ele pareceu-me feliz e tranqüilo. Eu confiante pensava, foi tudo planejado por nós, dará tudo certo, um filho será uma benção e motivação para ele se equilibrar na vida...
Naquela sexta-feira resolvi faltar à faculdade, fui mais cedo para casa, esperá-lo para comemorar essa nova etapa de nossas vidas juntos. As 20h comecei a ficar preocupadas, às 22h, desesperada, às 24h, imensamente triste. Ele não voltou. Na manhã de sábado, um colega de trabalho dele ligou-me:
- Ele está aqui em casa, bebeu todas, não conseguiu nem se levantar...
  Eu concluí intimamente: desesperou-se, o confronto de sentimentos, alegria e medo o fez fugir, perdeu o chão.
  Iniciou- se uma seqüência de acontecimentos que o levou a primeira recaída. Braços picados, “comprimidos estranhos” na carteira foram minhas preocupações no decorrer dos nove meses de gravidez.
Durante a semana eu trabalhava e estudava. Quando chegava o fim de semana preparava-me para momentos tenebrosos. Quando ele sumia, a solidão e angustia eram minhas companhias.  Às vezes uma surpresa, tínhamos momentos luminosos. Ficávamos grudados, fazendo planos, havia unidade... Então eu me despia dos medos e embarcava na viagem de sermos felizes. Ele prometia:
- Não vou usar mais nada, estou bem, sei me controlar, não se preocupe...
  Eu vivia aquele momento de felicidade. Mas, um único pensamento tomava conta de mim durante todos os outros momentos:
- Como ajudá-lo? Como convencê-lo a fazer novamente um tratamento? Não quero perdê-lo... Estou me perdendo?   E quando nosso filho nascer, como cuidarei dos dois?

domingo, 6 de março de 2011

Fragmentos de uma história que está ficando no passado

É feriado de carnaval, mas, sinto-me como com a sensação de “ano novo”.

Está chovendo, que beleza, respiro aliviada, olhando para fora da varanda tem uma serra verde em frente ao prédio que moro, gosto dessa mistura de árvores, pista, pedestres, um dia cinza... Que sorte morar numa cidade com ares de interior, mas, organizada igual os grandes centros urbanos.

Dias assim, me pego matutando sobre quanto tudo mudou nesses últimos meses. Estou mais comigo, com minhas crianças, com meu trabalho novo, amigas novas, calçadas e trajetos novos, tudo novo, adoro o NOVO! Coisa de nômade.

Com ele, nesse último mês, quase não nos falamos, às vezes pela internet. Quando cheguei e me instalei aqui, nos falávamos muito, ainda estava tudo meio confuso, apegos e indefinições, sentimentos misturados de alívio e falta. Mas agora tenho clareza de quanto essa mudança foi “divinamente providenciada”, passo a passo subo a escada e venço meu luto... Está divorciada vai parecendo uma situação comum. E nossa história só vai virando só mais uma história dessas que conto, às vezes de verdade, às vezes inventada, às vezes misturada.

O começo foi belo, tenho carinho por esse momento, nem todo começo de história de amor é belo. Vou partilhar alguns fragmentos dessa história com vocês. Começando pelo começo...

Ia ser mais um domingo comum na praia, lugar predileto da minha galera da faculdade, isso, se não tivesse aparecido um lindo anjo de carne e osso me olhando. Tenho mania por anjos, acho que é o desejo de está perto do céu... (risos).

Eu estava numa fase racional, meu coração e meu sexo estavam fechados pra “balanço”, queria ficar sozinha por uns tempos. Estava nessa já há quatro meses... Enfim, foi só ele, o tal anjo pedir para o garçom chamar-me  para a mesa dele que o coração se abriu.

Foi um dia especial, parecia que estava no filme ”menino do rio”, um artista, tocando violão para mim até o sol se por. Fiquei apaixonada naquele mesmo dia, um beijo quando nos despedimos definiu que já era namoro. No dia seguinte descobrimos que estudávamos na mesma universidade. Tudo muito rápido, foram cinco meses intensos e eu nem sentia os pés no chão, no sétimo mês de relação nos casamos. Era um conto de fadas, eu só queria “brincar de casinha”. Falava pra todo mundo que era um reencontro, pois já nos conhecíamos de outra encarnação, ele amava, tudo me parecia simples assim.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Lembranças de viagens 1

Os últimos dias que passei naquela cidade foram de contentamento.

Era um domingo lindo, tínhamos terminado nossa seção de meditação. Fiquei sem voz, todo silêncio do mundo tomou conta de minha alma quando aquela jovem, meio índia, meio negra, levantou-se e disse:

- Preparei algo especial para você, esse é o primeiro poema que recitei, é de Esmeralda Ribeiro, ele me lembra você, nos lembra, nós mulheres livres, escute:

Ressurgir das cinzas

Sou forte, sou guerreira,
tenho nas veias sangue de ancestrais.
Levo a vida num ritmo de poema-canção,
mesmo que haja versos assimétricos,
mesmo que rabisquem, às vezes,
a poesia do meu ser,
mesmo assim, tenho este mantra em meu coração:
“nunca me verás caída ao chão".

Sou destemida,
herança de ancestrais,
não haja linha invisível entre nós
meus passos e espaços estão contidos
num infinito tonel,
mesmo tendo na lembrança jovens e parentes que, diante da batalha deixaram
a talha da vida se quebrar,
mesmo tendo saudade cultivada no portão.
Mesmo assim, tenho este mantra em meu coração:
“nunca me verás caída ao chão”.

Sou guerreira como Luiza Mahin,
Sou inteligente como Lélia Gonzáles,
Sou entusiasta como Carolina de Jesus,
Sou contemporânea como Firmina dos Reis
Sou herança de tantas outras ancestrais.
E, com isso, despertem ciúmes daqui e de lá,
mesmo com seus falsos poderes tentem me aniquilar,
mesmo que aos pés de Ogum coloquem espada da injustiça
mesmo assim tenho este mantra eu meu coração:

“Nunca me verás caída ao chão".

Sou da labuta, sou de luta,
herança dos ancestrais,
trabalhar, trabalhar, trabalhar,
mesmo que nos novos tempos irmãos seduzidos
pelo sucesso vil me traiam, nos traiam como Judas
sob a mesa, meu, ganha-pão.
Mesmo que esses irmãos finjam que não nos vêem,
estarei ali ou onde estiver, estarei de corpo ereto,
inteira, pronunciando versos e eles versando sobre o poder,
mesmo assim tenho esse mantra em meu coração
“nunca me verás caída ao chão".

Me abraço todos os dias,
me beijo, me faço carinho, digo que me amo, enfim,
sou vaidosa espiritual,
mesmo com mágoas sedimentadas no peito,
mesmo que riam da minha cara ou tirem sarro do meu jeito,
mesmo assim tenho esse mantra em meu coração:
“Nunca me verás caída ao chão".

Me fortaleço com os ancestrais,
me fortaleço nos braços dos Erês.
podem pensar que me verão caída ao chão,
saibam que me levantarei não há poeiras para quem cultua seus ancestrais,
mesmo estando num beco sem saída, levada por um mar de águas,
mesmo que minha vida vire uma maré,
vire tempestade, sei que vai passar.
Porque são meus ancestrais que se reúnem num ritual secreto
para me levantar. Eu darei a volta por cima e estarei em pé, coluna ereta,
cheia de esperança, cheia de poesia e com muito axé
por isso, desista, tenho este mantra em meu coração:
“nunca me verás caída ao chão
".

Sua voz era forte, seu olhar no infinito. Dos tesouros que guardo na vida,
com certeza a lembrança desse dia é um dos mais preciosos.